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jueves, 3 de julio de 2008

LENDA DE OBALUAYE – OMULU

Nanan, esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi
perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu
pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que
trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz!
Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia
olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria
melhor para todos.
Yemonjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas
areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém
tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das
água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde
compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar
gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre
criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho.
Com seu grande instinto maternal, Yemonjá dispensou a ele todo o carinho e
os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo
do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar
as chagas.
Obaluayê cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não
ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso,
provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia
imaginar o que se escondia sob aquelas palhas.
Oyá, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria
desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Obaluayê, sem lhe dar a
menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida,
resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar
as palhas que o protegiam.
Quando a poeira assentou, Oyá pode ver um ser de uma beleza tão radiante,
que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como orixá, conseguia
erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério
deveria continuar escondido.
Uma outra lenda nos mostra que esse poderoso orixá, em suas andanças pelo
mundo, pode presenciar o desenrolar de muitas guerras. Os povos que
Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas
morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para
seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as
guerras não tinham mais fim. Obaluayê não entendia o motivo destas
guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos.
As lutas traziam muita dor e destruição, e ninguém mais sabia dar o devido
valor à vida humana. Os homens só pensavam em seus interesses materiais.
Obaluayê, indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é
o maior tesouro que alguém pode ter.
O poderoso orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão,
no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente.
Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença.
De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes
dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras.
As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à
beira da morte.
Um babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem
sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Obaluayê havia
mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos
saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com
coisas materiais. Desta vida nada se leva, a não ser o conhecimento e a
experiência que acumulamos.
Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme
explicou o babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e
restabelecer sua dignidade. Mas, infelizmente, nem todos agiram assim.
Talvez, por isso, existam tantos povos africanos vivendo do mesmo jeito há
milhares de anos, tentando não se desligar da natureza