martes, 7 de octubre de 2008

OUTRAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS : O CATIMBÓ

O CATIMBÓ :
A Jurema é uma árvore que floresce no agreste e na caatinga nordestina; da casca de seu tronco e de suas
raízes se faz uma bebida mágico-sagrada que alimenta e dá força aos encantados do “outro-mundo”. É
também essa bebida que permite aos homens entrar em contato com o mundo espiritual e os seres que lá
residem.
O Catimbó, envolve como padrão a ingestão da bebida feita com partes da Jurema, o uso ritual do tabaco, o
transe de possessão por seres encantados, além da crença em um mundo espiritual onde as entidades
residem.
Para seus adeptos, o mundo espiritual tem o nome de Juremá e é composto por reinados, cidades e
aldeias. Nestes Reinos e Cidades residem os encantados: os Mestres e os Caboclos. “Cada aldeia tem três
‘mestres’. Doze aldeias fazem um Reino com 36 ‘mestres’. No reino há cidades, serras, florestas, rios.
Quanto são os Reinos? Sete, segundo uns. Vajucá, Tigre, Candindé, Urubá, Juremal, Fundo do Mar, e
Josafá. Ou cinco, ensinam outros. Vajucá, Juremal, Tanema, Urubá e Josafá”.
Troncos da planta são assentados em recipientes de barro e simbolizam as cidades dos principais mestres
das casas. Estes troncos, juntamente com as princesas e príncipes, com imagens de santos católicos e de
espíritos afro-ameríndios, maracas e cachimbos, constituirão as Mesas de Jurema. Chama-se Mesa o altar
junto ao qual são consultados os espíritos e onde são oferecidas as obrigações que a eles se deva.
As princesas são vasilhas redondas de vidro ou de louça dentro das quais são preparadas a bebida sagrada
e, em ocasiões especiais, onde são oferecidos alimentos ou bebidas aos encantados. Os príncipes são taças ou copos, que normalmente estão cheios com água e eventualmente com alguma bebida do agrado
da entidade.


Os Habitantes do Juremá


Duas categorias de entidades espirituais tem seus assentamentos nas mesas de Jurema, os Caboclos e os
Mestres.
Os Caboclos são identificados como entidades indígenas que trabalham principalmente com a cura através
do conhecimento das ervas, dão passes e realizam benzeduras com ervas e folhagens. São associados às
correntes espirituais mais elevadas, as que trabalham para o bem, mas que também podem ser perigosas
quando usados contra alguém. Por isso são muito temidos.
Uma outra categoria de entidades que recebem culto na Jurema é a dos Mestres. Os mestres são descritos
como espíritos curadores de descendência escrava ou mestiça. Pessoas que, quando em vida, possuíam
conhecimento de ervas e plantas curativas. Por outro lado, algo trágico teria acontecido e eles teriam
morrido, se “encantando”, podendo assim voltar para “acudir” os que ficaram “neste vale de lágrimas”.
Alguns deles se iniciaram nos mistérios e “ciência” da Jurema antes de morrer. Outros adquiriram esse
conhecimento no momento da morte, pelo fato desta ter acontecido próximo a um espécime da árvore
sagrada.
O símbolo dos mestres é o cachimbo ou “marca”, cujo poder está na fumaça que tanto mata como cura,
dependendo se a fumaçada é “às esquerdas” ou “às direitas”. Essa relação com a “magia da fumaça” é
expressa nos assentamentos dos mestres, onde sempre se encontra presente “rodias” de fumo de rolo, nos
cachimbos e nas toadas.
As marcas são gravadas nos cachimbos, e indicam as vitórias alcançadas pelo mestre que o usa. Quando
em terra, os mestres já chegam embriagados e falando embolado. São brincalhões, falam palavrões, mas
são respeitados por todos. Dançam tendo como base o ritmo dos Ilus e a letra das toadas. Como oferendas,
recebem a cachaça, o fumo, alimentos preparados com crustáceos e moluscos diversos. Com essas
iguarias, agrada-se e fortifica-se os mestres. A bebida feita com a entrecasca do caule ou raiz da Jurema e
outras ervas de “ciência” (Junça, Angico, Jucá, entre outras) acrescidas à aguardente, é, entretanto, a maior
fonte de força e “ciência”, para estas entidades.
Também trabalham no Catimbó as Mestras. Tais mestras são peritas nos "assuntos do coração", são elas
que dão conselhos as moças e rapazes que queiram casar-se, que realizam as amarrações amorosas, que
fazem e desfazem casamentos.


Juremação


Muitos juremeiros dizem que “um bom mestre já nasce feito”; contudo alguns ritos são utilizados para
“fortificar as correntes” e dar mais conhecimento mágico-espiritual aos discípulos. O ritual mais simples,
porem de “muita ciência” é o conhecido como “juremação”, “implantação da semente”, ou “Ciência da
Jurema”. Este ritual consiste em plantar no corpo do discípulo, por baixo de sua pele, uma semente da
árvore sagrada. Existem três procedimentos para isso. Em um primeiro, o próprio mestre promete ao
discípulo e após algum tempo, misteriosamente, surge a semente em uma parte qualquer do corpo. Um
segundo procedimento é aquele em que o líder religioso realiza um ritual especial, onde dá a seus afilhados
a semente e o vinho de Jurema para beber. Após este rito, o iniciante deve abster-se de relações sexuais
por sete dias consecutivos, período em que todas as noites ele deverá ser levado em sonhos, por seus
guias espirituais, para conhecer as cidades e aldeias onde aqueles residem. Ao final deste período, a
semente ingerida deverá reaparecer em baixo de sua pele. Num terceiro procedimento, o juremeiro implanta
a semente da Jurema, através de um corte realizado na pele do braço.


Reuniões e Festas


Uma “Mesa” pode ser aberta “pelas direitas” ou “pelas esquerdas”. Nas abertas “pelas direitas”, só as
entidades mais elevadas devem se fazer presentes. Incorporadas elas dão passes, receitam banhos de
ervas e defumações.
Quando se abre uma mesa “pelas esquerdas” qualquer tipo de entidade espiritual pode vir. Os trabalhos
não precisam, necessariamente, visar o mal de alguém, contudo, aberto os trabalhos por este lado da
“ciência”, já é possível devolver aos inúmeros inimigos, que estão sempre a espreita, os males que estes
possam estar fazendo.
Orações e saudações feitas, canta-se para abrir a "mesa" e chamar os guias. Em algumas casas estes dão
sua presença, afirmando que protegerão seus discípulos durante a realização dos trabalhos. Subindo o último Índio ou Caboclo, é o momento de todos, exceto o juremeiro-mor, se prostrarem de joelhos no chão e
pedir ao Juremá licença para entrar em seus domínios; é que os “Senhores Mestres” já vem chegando...
Os discípulos pedem benção aos Juremeiros mais velhos na casa. Saúdam com benzenções a Mesa da
Jurema e os artefatos dos Mestres. A Jurema é dita aberta. Os Senhores Mestres começam a chegar.
É o momento das consultas que sempre têm clientela certa. Momento onde coisas sérias são tratadas com
irreverência, sem que no entanto percam a gravidade e o apresso dos mestres e mestras, sempre prontos
a ajudar a seus afilhados. Nos casos mais graves, entretanto, o mestre logo marca um dia mais
conveniente, onde poderá realizar "trabalhos em particular". É assim que o mestre, traz os recursos
financeiros necessários para a manutenção da casa de culto e do seu discípulo. Quando os Mestres se vão,
chegam as Mestras.