jueves, 3 de julio de 2008

LENDA DE YEMONJÁ

Yemonjá, grande orixá das águas, era filha de Olokun, o senhor dos oceanos.
Era possuidora de um grande instinto maternal, que fez dela mãe de dez
filhos. Embora casada, não tinha grande apego por seu marido. Às vezes,
pensava em deixá-lo, mas ele era um homem muito importante e poderoso, e
não permitiria tal desonra. Yemonjá também pensava no bem-estar de seus
filhos, não podendo deixá-los desamparados.
Seu marido usava o poder com tirania, inclusive com sua família, tornando a
vida dela insuportável. Ela não agüentava mais se submeter aos caprichos de
um homem que ela desprezava.
Ela procurou seu pai para aconselhar-se sobre a atitude que deveria tomar.
No fundo, ela já estava decidida a fugir, mas precisava de seu apoio. Olokun
não a recriminou, pois ela era uma soberana e, como tal, não poderia aceitar
o jugo de ninguém. Ele, então, deu à sua filha uma cabaça com
encantamentos, para que ela usasse quando estivesse em perigo.
Yemonjá colocou seu plano em prática, fugindo com todos os seus filhos.
Quando ela já estava bem longe de sua aldeia, viu que estava sendo
perseguida pelo exército de seu marido. Pensou em enfrentá-los, mas eles
eram muitos e seria uma luta desleal. Yemonjá odeia os confrontos, pela
destruição que causam, já que é um orixá propagador de vida.
Quando se sentiu acuada, resolveu abrir a cabaça e pedir socorro ao seu pai.
Do seu interior escoou um líquido escuro, que, ao tocar o chão,
imediatamente formou um rio, que corria em direção ao oceano.
Foi nessas águas que Yemonjá e seu povo encontraram um caminho para a
liberdade.

LENDA DE OYÁ - YANSAN

YANSAN Segundo a lenda, Oyá vivia feliz com Ogun, pois os dois tinham muitas coisas
em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares.
Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Com ele, que
é conhecedor de todos os caminhos, Oyá aprendeu a andar pela Terra.
Gostava muito de vê-lo trabalhar, em seu oficio de ferreiro, tentando
aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Oyá pedia
insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogun a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era
ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu
exército estava usando esse mesmo tipo de arma.
Mas Ogun não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada.
Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Oyá adorava
a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia.
Começou a sentir-se rejeitada por ele.
Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogun, pois
precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso
com sua aparência. Era impossível não notar sua presença.
Ogun, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha
muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do
serviço.
Xangô também notou a presença de Oyá, sentindo uma grande atração por
ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a
respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam
muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como
Ogun.
Oyá estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo
com ele, mas não queria magoar Ogun, a quem respeitava muito.
Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando
sempre juntos por toda a Terra. Seria uma união perfeita.
Quando Ogun terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou
enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira
não podia ficar cativa para sempre.
Partiu atrás deles para vingar sua desonra!
Oyá estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais
ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre
como grande orixá da guerra.
Ogun estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande
fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Oyá, em defesa própria,
também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo, e Ogun em
sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses orixás,
assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos

LENDA DE OGUN

No início dos tempos, cada orixá dominava um elemento da natureza, não
permitindo que nada, nem ninguém, o invadisse. Guardavam sua sabedoria
como a um tesouro.
É nesse contexto que vivia a mãe das água doces, Oxun, e o grande caçador
Odé. Esses dois orixás constantemente discutiam sobre os limites de seus
respectivos reinados, que eram muito próximos.
Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e
transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta.
Oxun argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e
fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava
ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses
reinados, para tentar apaziguá-los.
A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A
vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais
fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para
beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras.
Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro
lugar.
Oxun, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos
animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com
a companhia de seus filhos peixes para confortá-la.
Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar
caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário
desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada.
Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava
definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava
matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário
para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxun, propondo a ela
uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira
tentativa. Oxun queria que Odé se desculpasse, reconhecendo suas
qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam
sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun.
Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun-Edé, que iria
consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais.
Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde
havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar
as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o
equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a
paz e a fertilidade.
Conta uma outra lenda que as terras e as águas estavam no mesmo nível, não
havendo limites definidos.
Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava
quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun
muito irritado.
Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a
transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava
muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a
cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a
terra.
Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu
fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim,
as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo,
suas oferendas são bem aceitas nesse local

LENDA DE OXUN

Conta a lenda que Oxalá, numa de suas caminhadas pelo mundo, iria passar
pela aldeia de Oxun, onde pretendia parar e descansar.
Exú, mensageiro dos orixás, correu para avisar Oxun que o grande orixá
fun-fun estava a caminho de sua cidade. Era preciso organizar uma grande
recepção, pois a visita era muito importante para todos. Ela, então,
apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as
casas e lugares públicos da aldeia, bem como que os enfeites utilizados
fossem da cor branca. Oxun cuidou pessoalmente da ornamentação e
limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não
se lembrou de convidar as Iya-mi para a grande festa.
As feiticeiras não perdoaram essa desfeita. Sentindo-se muito
desprestigiadas, resolveram desmoralizar Oxun perante os convidados.
No dia da chegada de Oxalá à cidade, Oxorongá entrou disfarçada no
palácio para colocar, no assento do trono da Oxun, um preparado mágico,
que não fora notado por ninguém.
Toda a cidade estava impecavelmente limpa e ornamentada. O palácio de
Oxun, que fora caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios
cobertos por tecidos de uma alvura imaculada. Branca também seria a cor
das roupas utilizadas na cerimônia.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande
demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, sentada em seu trono, esperava com impaciência a entrada de Oxalá
em seu palácio, quando iria oferecer-lhe seu próprio assento. Mas, ao tentar
levantar-se, percebeu que estava presa em sua cadeira e, por mais força que
fizesse, não conseguia soltar-se. O esforço que empreendeu foi tão grande,
que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia
manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou
tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito
ofendido.
Oxun, envergonhada com o acontecido, não conseguia entender porque havia
ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma tinha cuidado
de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um
conselho. O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia colocado feitiço em
seu assento, por não ter sido convidada.
Exú, a pedido de Oxun, foi em busca do grande pai, para relatar-lhe o
ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de
cabeça baixa, muito constrangida. Quando ela o viu, começou a abanar seu
abebe, transformando o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao
voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam, inclusive a de
Oxalá. Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageálo,
ele aceitou aquela pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente,
em sinal de agradecimento.
A partir de então, essa pena foi introduzida nos rituais de feitura do
Candomblé.

LENDA DE XANGÔ

Xangô, quando viveu aqui na Terra, era um grande Obá (rei), muito temido e
respeitado. Gostava de exibir sua bela figura, pois era um homem muito
vaidoso. Conquistou, ao longo de sua vida, muitas esposas, que disputavam um
lugar em seu coração.
Além disso, adorava mostrar seus poderes de feiticeiro, sempre
experimentando sua força.
Em certa ocasião, Xangô estava no alto de uma montanha, testando seus
poderes. Em altos brados, evocava os raios, desafiando essas forças
poderosas. Sua voz era o próprio trovão, provocando um barulho
ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com essa
atitude, ficando ali por muito tempo, impaciente por não obter resposta. De
repente, o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. As pessoas
ficaram impressionadas com a beleza daquele fenômeno, mas, ao mesmo
tempo, estavam apavoradas, pois nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder, ficou extasiado com o
acontecimento. Não parava de proferir palavras de ordem, querendo que o
espetáculo continuasse. Era realmente algo impressionante!
Foi, então, que, do alto de sua vaidade, viu a situação fugir ao seu controle.
Tentou voltar atrás, implorando aos céus que os raios, que cortavam a Terra
como poderosas lanças, desaparecessem. Mas era impossível - a natureza
havia sido desafiada, desencadeando forças incontroláveis!
Xangô correu para sua aldeia, assustado com a destruição que provocara.
Quando chegou perto do palácio, viu o erro que cometera. A destruição era
total e, para piorar a situação, todos os seus descendentes haviam morrido.
Ao ver que o rei estava muito perturbado, seu próprio povo tentou consolálo
com a promessa de reconstruir a cidade, fazendo tudo voltar ao que era
antes. Xangô, sem dar ouvidos a ninguém, foi embora da cidade.
Ele não suportou tanta dor e injustiça, retirando-se para um lugar afastado,
para acabar com sua vida. O rei enforcou-se numa gameleira.
Oyá, quando soube da morte de seu marido, chorou copiosamente, formando
o rio Niger. Ela, que tinha conhecimento do reino dos eguns, foi até lá para
trazer seu companheiro da morte, que veio envolto em panos brancos e com
o rosto coberto por uma máscara de madeira, pois não podia ser
reconhecido por Ikú, o Senhor da Morte. Xangô ressurge dos mortos,
tornando-se um ser encantado. E foi assim que surgiu uma nova forma, ou
qualidade, desse orixá, a qual chamamos Airá. Essa variação da essência de
Xangô adotou, além do vermelho, a cor branca.
Outra lenda nos dá conta que Xangô, com sua irresistível aparência, atraía
muitas mulheres. Era muito vistoso, com seus cabelos trançados e os
enfeites de cobre em seu corpo. Possuía muitas esposas, como Obá e Oxun.
Oxun era a mais bela esposa de Xangô, muito mais vaidosa do que ele,
dispensando grande parte de seu tempo para enfeitar-se e, assim, poder
agradar seu amado.
Xangô apreciava muito sua companhia e o esforço que fazia para fazê-lo
feliz.
Obá não tinha o mesmo tratamento, por isso, sentia-se rejeitada. Ela era
muito possessiva em seus relacionamentos e não suportava mais essa
situação.
Oxun havia percebido que Obá a invejava e queria roubar-lhe o companheiro.
Muito faceira e com ares de superioridade, começou a contar vantagens
para a rival, que fingia não se importar. Dizia que Xangô adorava um certo
quitute preparado com um ingrediente muito especial: um pedaço de orelha.
Obá acreditou nela, pois, naquele momento, Oxun estava com um torço
amarrado na cabeça. Embora parecesse estranho, devia ser tudo verdade,
pois Xangô estava enfeitiçado por Oxun.
Juntando muita coragem e determinação, Obá cortou fora sua orelha para
preparar o tal prato.
Xangô chegou bem na hora e viu o sangue que escorria da cabeça de Obá.
Preocupado, quis saber o que havia acontecido com ela. Quando soube do
acontecido, ficou enfurecido com Obá, por pensar em oferecer-lhe uma
comida tão esquisita!
Percebendo a mentira de Oxun, saiu furiosa à sua procura para ajustarem
contas.
Xangô separou as duas rivais, que se transformaram em rios. Obá foi
embora desse reinado e nunca mais voltou

LENDA DE OSSAIN

Ossain era o único orixá que sabia reconhecer e despertar os poderes
mágicos das plantas e usá-los para curar as enfermidades, ou nos rituais
litúrgicos. Ele sabia, como ninguém, fazer misturas mágicas com os vegetais,
raízes e folhas.
Os outros orixás também tinham o desejo de possuir suas próprias folhas,
bem como o conhecimento necessário para receber o axé proveniente delas,
mas Ossain não revelava seus segredos e não deixava ninguém apanhar
folhas em suas florestas.
Oyá (Yassan) não aceitava essa situação, pois sua aldeia estava sendo
assolada por doenças, e nada podia ser feito. Foi, então, que ela pediu a
Ossain que lhe desse algumas folhas e seus respectivos encantamentos, mas
este negou-se a fazê-lo. Oyá ficou muito contrariada, não se conformando
com uma atitude tão insensível. Sua fúria incontrolável fez levantar o vento.
E o vento foi tão forte, que as folhas se desprenderam das árvores, voando
para todos os cantos da floresta. Ossain gritava: "Minhas folhas, minhas
folhas". A cabaça com os segredos ficou exposta por algum tempo,
possibilitando aos orixás a oportunidade de absorver uma pequena parte
desse conhecimento. Assim, os orixás cataram suas folhas, que seriam
utilizadas em seus rituais sagrados; porém, não podiam dispensar a ajuda de
Ossain, pois ele sempre será o grande sábio da floresta.
Outra lenda nos conta que Ossain trabalhava na roça de Orunmilá, que é um
orixá fun-fun (da cor branca) e detentor do conhecimento do oráculo
divinatório. Ossain tinha a tarefa de cultivar os campos, mas recusava-se a
limpar o terreno para fazer a semeadura. Ele não conseguia podar as
plantas, pois achava utilidade em todas elas. Essas folhas podiam curar todo
tipo de doença existente.
Orunmilá, vendo que o serviço não saía, foi ver o que estava acontecendo.
Ossain explicou seus motivos, fazendo com que o grande orixá fun-fun
percebesse estar diante de um ser encantado e de grande conhecimento. Ao
invés de castigá-lo, deu-lhe uma posição de destaque dentro do oráculo de
Ifá. Dessa forma, Orunmilá teria, perto de si, alguém para lhe revelar os
segredos das folhas

LENDA DE ODÉ

Na cidade de Ifé, realizavam-se festividades e rituais por ocasião das
colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não
realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas
conhecidas: as Iya-mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma
boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar
aquela aldeia.
A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a
cidade.
Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não
sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro.
Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era
tarde demais para isso.
Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das
bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma
flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador
era Odé.
Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação
a ele. Consultando um babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu
filho corria grande perigo.
Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse
executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com
sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo
venerado por esse povo.

LENDA DE OGUN

Ogun vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não
tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes
dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e
fazer silêncio absoluto, além de outras oferendas.
Partiu, em sua longa jornada, para os campos de batalha, onde permaneceu
sete anos. No regresso à sua aldeia, caminhou durante muitos dias, sentindo
muito cansaço. A fome e a sede também o atormentavam. Na primeira casa
que encontrou pediu água e comida, mas ninguém o atendeu, permanecendo
calados e de olhos fixos no chão.
Resolveu, então, fazer outra tentativa na próxima casa, mas a cena foi a
mesma, o que despertou sua ira. Ele esbravejou com os moradores, exigindo
que falassem com ele, mas ninguém o fez.
Não se conformava com tamanha falta de respeito, depois de ter lutado
tanto!
Ogun esperava uma recepção calorosa em sua própria aldeia, mas, ao
contrário, só encontrou silêncio.
À medida que avançava pelo interior da cidade, a mesma coisa se repetia,
casa após casa. Ogun nem imaginava o que estava acontecendo. Perguntava e
não recebia resposta.
Sua ira já estava incontrolável, quando chegou ao centro do povoado, onde
haviam muitas pessoas. Estranhou o fato de ninguém estar conversando.
Perguntou a eles onde estavam suas famílias, mas não obteve resposta. Era
uma afronta!
Foi assim que, evocando todos os seus poderes, Ogun dizimou sua própria
aldeia.
Caçadores que passavam pela cidade, entre eles seu filho, o reconheceram e
tentaram aproximar-se. Vendo que sua cólera era imensa, resolveram evocar
Exú para acalmá-lo.
A ira desse orixá finalmente foi aplacada. Seu filho, indignado ao ver tanta
destruição, indagou o motivo que levou seu pai a cometer tal atrocidade.
Ogun respondeu que aquelas pessoas lhe faltaram com respeito quando não o
reconheceram. Precisavam de um castigo.
Foi, então, que seu filho fez-lhe lembrar da exigência que fizera antes de
partir para a guerra.
Ogun, tomado pelo remorso, devido à sua crueldade com pessoas que só
estavam obedecendo ordens, abriu o chão com sua espada enterrando-se de
pé.

LENDA DE EXÚ

Exú sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os orixás. Olorun,
quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento
de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no
orun (céu), ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a
todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que o som dos tambores
e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exú, que parasse com aquela atividade barulhenta,
para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exú nunca mais tocou seus tambores, respeitando a
vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a sentir falta da
alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao
som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exú que voltasse a animar
as festas, pois elas estavam muito sem vida.
Exú negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua
animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a
primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Exú confiou-lhe a missão de tocar
tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos orixás. E,
daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam
respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans